“O
homem nasceu livre, e em toda parte se encontra sob ferros.” (Jean-Jacques
Rousseau)
Lá
estava eu. Encontrava-me geometricamente justaposto no leito, solitário, a
pensar no nada, a negar minha existência. Diametralmente encarava-me frente a
um espelho vivamente mortal. Um som gutural saia de minha boca. Meus lábios
abriam-se e fechavam-se. Queria gritar, expressar-me de alguma forma.
Imaginava-me
pulando por uma imaginária janela, todavia no local em que encontrava-me não
havia por onde escapar, fugir, correr, exilar-me da loucura de meus ilógicos
pensamentos. Sentia-me catatônico, como uma pedra, sem forças para levantar
meus braços e pernas. Minhas pálpebras mexiam-se, juntamente de meus piscantes
olhos. Dilatava-se minha pupila em busca de visualizar ao redor, enxergar além
do claustrofóbico e espartano branco das paredes prestes a engolir-me,
devorar-me, saborear-me e realizar uma indigesta digestão.
Estava
nu, desgrenhados cabelos e barba por fazer. Um devaneio? Talvez. A forma de
comprovar tal improvável hipótese seria pular da cama direto ao frio, cru e
mórbido chão. Com extrema dificuldade e sorte, consegui o feito. Escorreguei
dos lençóis da cama e joguei-me ao frio, cru e mórbido chão. Meus olhos não
queriam crer no que viam. Um limbo formou-se no lugar do frio, cru e mórbido
chão e fui imediatamente engolido, devorado, saboreado. Ao abrir meus olhos,
não distinguia onde estava, pois nada via diante de mim.
De
repente, ouvi um característico som e uma luz acendeu-se por detrás de minhas
costas. Uma imagem formou-se em frente a meu rosto de impassível expressão e de
dilatadas pupilas, entretanto, nada havia na tal imagem, apenas um fundo branco
com indecifráveis, hieroglíficas palavras, escritas em uma língua de impossível
compreensão. Olhei para baixo e agora conseguia enxergar meu corpo, não mais
nu, e sim envolto por uma branca vestimenta que impossibilitava-me de mexer
meus braços. Gritei muito alto e percebi que minha boca encontrava-se amarrada
com um barato lenço. A branca imagem tornara-se viva e cegou-me. Não mais
conseguia movimentar-me. Sentia mãos a tocarem em meu petrificado corpo. Ouvi
uma rouca voz com sotaque estrangeiro a dizer: “Peguem a cabeça, o centro do
espírito crítico. Sem a cabeça, ele não mais questionará.” Outra voz, de
aspecto ligeiro, pronunciou: “Tragam a foice.” Um bando de carrascos, sedentos
por sangue, terminaram de retirar-me a vida.
E
quem lhes narra essa história ungida de extravagantes e extraterrenos rituais?
Um espírito e nada mais.

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